sábado, 8 de outubro de 2016

01 - A genialidade de Drummond

   

Carlos Drummond de Andrade – o poeta imortal


A luminosa trajetória do gênio que se distinguiu pelo recato e se tornou imortal sem precisar da Academia. Nasceu em 1902 em Itabira, no interior de Minas Gerais, numa família de fazendeiros. Estudou em Nova Friburgo, no Rio de Janeiro, e em Belo Horizonte, foi expulso da escola aos 19 anos por “insubordinação mental”. Formou-se em Farmácia só porque o curso era mais curto que os outros (durava três anos), mas nunca exerceu a profissão. Foi professor de Geografia e Português, jornalista e se aposentou como funcionário público. Passou a juventude em Belo Horizonte, onde fundou uma revista modernista junto com Emílio Moura e João Alphonsus. Aos 23 anos, casou-se com Maria Dolores. Teve um filho que morreu pouco depois de nascer – fato que o deprimiu bastante – e Maria Julieta, que ficou sendo sua filha única.
Apesar de seus mais de sessenta anos de casamento com Maria Dolores e da intensa ligação com a filha, na poesia de Drummond são a cidade de Itabira e a figura do pai do escritor que ganham relevo:

O hábito de sofrer, que tanto me diverte, é doce herança itabirana.

Ou em:

Meu pai perdi no tempo e ganho em sonho.
Se a noite me atribui poder de fuga,
sinto logo meu pai e nele ponho
o olhar, lendo-lhe a face, ruga a ruga.

À medida que Drummond envelheceu, ficou ainda mais radical esse propósito seu de escarafunchar na memória, de redescobrir um menino antigo perdido no tempo, o lancinante amor pelas coisas e pessoas já mortas, recuperáveis somente por meio da poesia.
Temperamento tímido e extremamente cioso de sua privacidade, Drummond pouco falou sobre sua intimidade. De sua vida pública também não falou muito.
Na obra poética, Drummond foi o que o poeta americano definiu como um “mestre”: o que, manejando habilmente aquilo que de melhor é oferecido pela tradição poética, se abre para o novo e consolida uma linguagem inovadora. Linguagem que, com ritmos diferentes, termina por se espalhar pelo idioma revigorando-o. No caso de Drummond, a popularização foi rápida: “Tinha uma pedra no meio do caminho”, “E agora, José?” e “Se eu me chamasse Raimundo/ seria uma rima, não seria uma solução” são expressões que já fazem parte da língua falada. Para quem gosta de poesia, a de Drummond é um veio inesgotável, tanto que praticamente todos os críticos brasileiros, das sumidades às nulidades, a adotaram como objeto de estudo. Para quem não tem interesse por versos, Drummond oferece variedade (lírica, humor, amor, política, vida e morte) e uma comunicabilidade imediata.
Para a literatura brasileira – tanto aquela que faz muito barulho e poucas obras como a formada pela nata dos grandes escritores –, a vida e a obra de Drummond encerram lições contundentes. Poucos, como ele, fugiram das patotas, do academicismo, das declarações bombásticas e dos holofotes da fama. E, por isso, atingiram o efeito inverso: Drummond atingiu a notoriedade como que à sua revelia. Como que adotou a tática de Napoleão Bonaparte para se sobressair entre seus generais. Napoleão incentivava seus generais a se cobrirem de medalhas, alamares e penas, enquanto ele se vestia sobriamente. No conjunto, era a simplicidade de Bonaparte que ganhava destaque. Num ambiente tão ocupado pelos “pavões”, como o Brasil das letras, o retraimento de Drummond fez com que ele atraísse todas as atenções.
Caso também raro entre os literários brasileiros, o poeta não só aceitava críticas como também tinha uma avaliação bastante severa de sua obra. “Não creio na validade da minha obra”, disse em 1980. “Daqui a cinco ou dez anos, terei desaparecido e virão novos poetas, novas formas de poesia, novos critérios, novas tendências”. Às vezes, Drummond partia para uma linha de avaliação que permanecia a meio-termo entre o disparate e a provocação bem-humorada. “A minha produção jornalística é muito maior e incomparavelmente superior à de poeta”, disse há três anos. “Já fui chefe de redação em um jornal em Minas e fui redator de três outros jornais, então a minha vocação é mesmo para o jornal”.
Por timidez e vaidade, Drummond não aceitou os convites para tornar-se imortal entrando para a Academia Brasileira de Letras. Para o poeta, importava mais ficar de fora da Casa de Machado de Assis: ficaria à margem, descompromissado, auferindo as atenções proporcionadas pelo seu gesto. Para a Academia, o dano é irreparável: aquele que é considerado o maior poeta brasileiro de todos os tempos não quis vestir fardão.
Drummond morreu em 1987, vítima de ataque cardíaco, doze dias depois da morte da pessoa que mais amava, a filha Maria Julieta.

Drummond, um dos mais importantes poetas brasileiros de todos os tempos.







Vocabulário


Contundente: que se contunde; incisivo, agressivo.
Revelia: qualidade de rebelde, insurgente.
Cioso: que tem ciúmes ou zelos por amizade ou por amor, ciumento, zeloso.
Sumidade: qualidade do que é eminente, superior.
Alamar: enfeite ou ornato do vestuário.
Fardão: vestimenta de significado simbólico usado por membros de academias literárias.
Auferir: colher, lucrar.
Disparate: expressão destituída de razão e de senso; ato impensado, absurdo; procedimento literário que se utiliza de lógica para passar subitamente de um tema para o outro.
Recato: característica do que é decente, do que tem pureza, honestidade, pudor, modéstia.
Insubordinação: desobediência, rebeldia; motim, revolta.
Lancinante: que lancina, que se faz sentir por pontadas, fisgadas internas.




       





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