sábado, 8 de outubro de 2016

29 - Seu Lunga em Mossoró

   
Este texto foi escrito por José Augusto de Araújo da Silva, um poeta nordestino que reside em Mossoró (RN), onde é professor e estuda Direito. Seu gosto pela literatura de cordel vem da infância, época em que sua avó-mãe comprava cordéis na feira para serem lidos à noite para um grupo de pessoas em sua casa.

Capa do livro Seu Lunga em Mossoró.



Capa do livro Seu Lunga em Mossoró.


Seu Lunga em Mossoró

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Seu Lunga é um senhorio
Que nasceu em Juazeiro,
E o povo todo bem sabe
O quanto tem de brejeiro
Pelas artes que apronta,
Por não fazer nó sem ponta
Nem dar valor a dinheiro.

Ao invés de nove meses
De sete meses nasceu
Numa pequena choupana
Num dia que o chão tremeu,
O São Francisco secou,
Um prefeito se salvou
E seu pai de medo correu.

Cresceu sem papa na língua,
Sem medo de assombração:
Caipora, carranca e alma
Tudo isso era invenção.
Lobisomem, para-figo,

Saci seu melhor amigo,
Pra ele era diversão.
Como todo sertanejo
Seu Lunga tem muita fé;
Vontade de visitar
Santa Luzia que é
Sua santa de pedido,
Esteja bom ou ferido
No olho ou no peito do pé.

Lunga um dia acordou cedo
E disse: – Socorro eu vou
Viajar pra Mossoró
Porque o momento chegou;
Eu vou ver Santa Luzia
E do povo a valentia
Que Lampião expulsou.
Mas sua mulher disse:
– Homem vai te aquietar!
A promessa que tu fez
Não precisa mais pagar;

Já faz mais de trinta anos
Que você faz esses planos
De para lá viajar
Você pode se quiser
Pagar essa tal promessa
A qualquer outra Santa;
Ou mandar essa remessa
Por Benedito Tinteiro
Que vai levando dinheiro
De Chiquim de Chico Bessa.

Respondeu Seu Lunga:
– Hoje mesmo partirei.
Eu nunca enganei ninguém
Imagine se eu serei
Capaz de trapacear
Santa que pode curar
“Os cegos de nossa lei”.

Porém, antes de seu Lunga
Terminar de se explicar,
Um grito estridente e fino
Gritava para avisar
Que o carro está de saída,
Já deu a última partida,
Não pode mais esperar.

Jogou a mala na mala,
Pulou em cima do carro
E no vai e vem do asfalto
Só acordou com um pigarro
Passando a mão na visão,
Faltando a respiração
Com fumaça de cigarro.

E já na rodoviária
Da cidade Mossoró
Foi abordado por três
Motoqueiros lá de Icó
Que pra lá e pra cá puxa
Seu Lunga de vista murcha
Dizendo ser seu xodó.

O mais esperto dos três
Bota seu Lunga no assento,
Sai correndo feito louco
Cortando poeira e vento,
Andando na contramão,
Pegado num caminhão
Confessando ter talento.

Soltou o Guidom da moto
E pra Seu Lunga se vira:
– Para onde o senhor vai?
Respondeu Lunga com ira:
Se não existir critério
Vou parar no cemitério
Feito Zé de Zé de Lira.

O nome de “cemitério”
Quando o motoqueiro ouviu,
Imaginou que Seu Lunga
De muito longe partiu
Pra visitar um parente
Nessa terra muito quente...
Pra o cemitério seguiu.

O motoqueiro parou
Na porta do cemitério
E perguntou: – Vai ver quem?
Mas seu Lunga muito sério
Antes de dar a resposta
Uma senhora de costa
Grita sem fazer mistério...

– Nesse instante foi curado
Meu menino que com prego
Vazou a vista há três anos.
Foi jararaca, não nego,
Quem curou essa desgraça
Fazendo essa grande graça,
Devolvendo vista a cego.

Seu Lunga disse: – Danou-se!
Isso só pode ser arte
Do demo ou d’outro mundo
Ou de Pedro Malazarte.
Eu nunca vi a visão
Ser curada pela mão
De cangaceiro sem parte.

O motorista escutando
Disse: – Vamos lá doutor
Para a estação das artes
Dançar forró no calor
Do passo de “Falamansa”,
Ver a praça da criança:
Coisa linda sim senhor.

Lunga ainda quis correr,
Mas o motoqueiro liga
Sua moto muito rápida
E por uma rua antiga
Que leva a u’a construção
Feita para Lampião
Só porque aqui fez briga.

Lunga solta um grito grosso:
– Pare, pare para eu vê...
A Praça de Lampião
Se não faço fuzuê.
O motoqueiro parou,
Ele num salão entrou
E disse: – Meu Deus pra quê?!

Pra que isso tudo meu Deus!
Um memorial pra quem
Já morreu e não merece.
Tendo gente que não tem
Uma simples moradia,
O quinhão de cada dia
Como seu único bem.

Seu Lunga andou um pouco,
Chegou ao salão de dança,
Mas quando ia entrando
Pra dançar com “Falamansa”
Num ruge, ruge entrou
Que quase ele desmaiou
Com um bofete na pança.

O motoqueiro se foi...
Nessa grande confusão,
E Seu Lunga apareceu
“Marcando passo no chão”
Na pracinha da criança
Sem dançar nenhuma dança

No meio da multidão.

Na frente da praça viu
Três meninos soluçando.
Seu Lunga se aproximou
Disse: – Por que estão chorando?
Um disse riscando o chão:
– Nós não temos um tostão,
Pois aqui só entra pagando.

Seu Lunga deu cinco contos
E perguntou onde fica
O lar Santa Luzia,
Mas eles não deram dica,
Não sabiam a direção
Do templo da oração
Só olhando a praça rica.

Dali Lunga saiu logo
A um e outro perguntando
Onde fica a catedral,
Quando ouviu alguém gritando:
– Seu Lunga, Seu Lunga aqui,
A catedral fica ali
Onde tem gente rezando.
Quando finalmente chega
Para a oferta ofertar
Seu Lunga respira fundo
E diz: – Vou agora entrar
Nesse lugar consagrado
Porque já estou atrasado
Para a promessa pagar.

Quando Lunga se benzeu,
Enfiou a mão no bolso
Para pagar a promessa,
Uma mulher e um moço
Com uma penca de meninos
Na badalada dos sinos
Diz: – Peço só pro almoço.

Seu Lunga olhou de lado
Viu aquela arrumação,
Paralisado ficou

Com tremor no coração,
Com dúvida, se ofertava...
À Santa ou logo dava
À mulher em comoção
Entre a Santa e a mulher
A mão de Lunga escolheu
Aquela pobre família
Que o dinheiro recebeu
Agradecendo e dizendo:
– Santa Luzia está vendo
Quem de nós mais mereceu.
E naquela mesma noite
Seu Lunga ficou sozinho
Imaginando e pensando:
Como o povo engole espinho
Sem moradia, sem pão,
Sem direito e sem razão
De seguir certo o caminho.

E de volta para casa
Ele torna a matutar:
Como é que em Mossoró
Sua gente vai rezar
Em cova de cangaceiro
Fazendo dele direito
E santo que faz curar.

Como é que se dá patente
A cangaceiro ladrão,
Gasta rios de dinheiro
Pra ouvir um tal de Zezão
E despreza trovador,
Tira o coro do lavrador
E não vê a judiação.

Como é que se constrói praça
Co’a dinheirama da gente
E essa mesma gente tem
De pagar trincando o dente
Pra num carrinho correr,
Num escorrega descer
E querer que eu aguente!

SILVA, José Augusto de Araújo. Seu Lunga em Mossoró. Juazeiro do Norte: Imbopla, 1998.


Personagem que representa o imaginário nordestino.


Personagem que representa o imaginário nordestino.



       





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