sexta-feira, 24 de novembro de 2017

1. A genialidade de Drummond

   

Carlos Drummond de Andrade – o poeta imortal


A luminosa trajetória do gênio que se distinguiu pelo recato e se tornou imortal sem precisar da Academia. Nasceu em 1902 em Itabira, no interior de Minas Gerais, numa família de fazendeiros. Estudou em Nova Friburgo, no Rio de Janeiro, e em Belo Horizonte, foi expulso da escola aos 19 anos por “insubordinação mental”. Formou-se em Farmácia só porque o curso era mais curto que os outros (durava três anos), mas nunca exerceu a profissão. Foi professor de Geografia e Português, jornalista e se aposentou como funcionário público. Passou a juventude em Belo Horizonte, onde fundou uma revista modernista junto com Emílio Moura e João Alphonsus. Aos 23 anos, casou-se com Maria Dolores. Teve um filho que morreu pouco depois de nascer – fato que o deprimiu bastante – e Maria Julieta, que ficou sendo sua filha única.
Apesar de seus mais de sessenta anos de casamento com Maria Dolores e da intensa ligação com a filha, na poesia de Drummond são a cidade de Itabira e a figura do pai do escritor que ganham relevo:

O hábito de sofrer, que tanto me diverte, é doce herança itabirana.

Ou em:

Meu pai perdi no tempo e ganho em sonho.
Se a noite me atribui poder de fuga,
sinto logo meu pai e nele ponho
o olhar, lendo-lhe a face, ruga a ruga.

À medida que Drummond envelheceu, ficou ainda mais radical esse propósito seu de escarafunchar na memória, de redescobrir um menino antigo perdido no tempo, o lancinante amor pelas coisas e pessoas já mortas, recuperáveis somente por meio da poesia.
Temperamento tímido e extremamente cioso de sua privacidade, Drummond pouco falou sobre sua intimidade. De sua vida pública também não falou muito.
Na obra poética, Drummond foi o que o poeta americano definiu como um “mestre”: o que, manejando habilmente aquilo que de melhor é oferecido pela tradição poética, se abre para o novo e consolida uma linguagem inovadora. Linguagem que, com ritmos diferentes, termina por se espalhar pelo idioma revigorando-o. No caso de Drummond, a popularização foi rápida: “Tinha uma pedra no meio do caminho”, “E agora, José?” e “Se eu me chamasse Raimundo/ seria uma rima, não seria uma solução” são expressões que já fazem parte da língua falada. Para quem gosta de poesia, a de Drummond é um veio inesgotável, tanto que praticamente todos os críticos brasileiros, das sumidades às nulidades, a adotaram como objeto de estudo. Para quem não tem interesse por versos, Drummond oferece variedade (lírica, humor, amor, política, vida e morte) e uma comunicabilidade imediata.
Para a literatura brasileira – tanto aquela que faz muito barulho e poucas obras como a formada pela nata dos grandes escritores –, a vida e a obra de Drummond encerram lições contundentes. Poucos, como ele, fugiram das patotas, do academicismo, das declarações bombásticas e dos holofotes da fama. E, por isso, atingiram o efeito inverso: Drummond atingiu a notoriedade como que à sua revelia. Como que adotou a tática de Napoleão Bonaparte para se sobressair entre seus generais. Napoleão incentivava seus generais a se cobrirem de medalhas, alamares e penas, enquanto ele se vestia sobriamente. No conjunto, era a simplicidade de Bonaparte que ganhava destaque. Num ambiente tão ocupado pelos “pavões”, como o Brasil das letras, o retraimento de Drummond fez com que ele atraísse todas as atenções.
Caso também raro entre os literários brasileiros, o poeta não só aceitava críticas como também tinha uma avaliação bastante severa de sua obra. “Não creio na validade da minha obra”, disse em 1980. “Daqui a cinco ou dez anos, terei desaparecido e virão novos poetas, novas formas de poesia, novos critérios, novas tendências”. Às vezes, Drummond partia para uma linha de avaliação que permanecia a meio-termo entre o disparate e a provocação bem-humorada. “A minha produção jornalística é muito maior e incomparavelmente superior à de poeta”, disse há três anos. “Já fui chefe de redação em um jornal em Minas e fui redator de três outros jornais, então a minha vocação é mesmo para o jornal”.
Por timidez e vaidade, Drummond não aceitou os convites para tornar-se imortal entrando para a Academia Brasileira de Letras. Para o poeta, importava mais ficar de fora da Casa de Machado de Assis: ficaria à margem, descompromissado, auferindo as atenções proporcionadas pelo seu gesto. Para a Academia, o dano é irreparável: aquele que é considerado o maior poeta brasileiro de todos os tempos não quis vestir fardão.
Drummond morreu em 1987, vítima de ataque cardíaco, doze dias depois da morte da pessoa que mais amava, a filha Maria Julieta.

Drummond, um dos mais importantes poetas brasileiros de todos os tempos.







Vocabulário


Contundente: que se contunde; incisivo, agressivo.
Revelia: qualidade de rebelde, insurgente.
Cioso: que tem ciúmes ou zelos por amizade ou por amor, ciumento, zeloso.
Sumidade: qualidade do que é eminente, superior.
Alamar: enfeite ou ornato do vestuário.
Fardão: vestimenta de significado simbólico usado por membros de academias literárias.
Auferir: colher, lucrar.
Disparate: expressão destituída de razão e de senso; ato impensado, absurdo; procedimento literário que se utiliza de lógica para passar subitamente de um tema para o outro.
Recato: característica do que é decente, do que tem pureza, honestidade, pudor, modéstia.
Insubordinação: desobediência, rebeldia; motim, revolta.
Lancinante: que lancina, que se faz sentir por pontadas, fisgadas internas.




       
       






   



   



   



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2. Tesouro líquido - GOTA-D’ÁGUA

   
Especialista da ONU diz que o consumo cresceu mais do que a população e ensina que o rio corre na direção do dinheiro.


Entre os desafios que aguardam o homem nas próximas décadas, talvez nenhum seja mais intimidador do que a falta d’água.
Pode parecer estranho falar em escassez num planeta composto por dois terços de água, mas, do total de 1,5 bilhão de quilômetros cúbicos (1,5 bilhão de trilhões de litros), 97,5% é salgada. Só 2,5% da água da Terra é doce. Parece pouco? Pois 68,9% desses 2,5% estão nos polos congelados e 29,9% em lençóis subterrâneos. Cerca de 0,9% dos 2,5% está nos pântanos. “Temos disponível em lagos e rios 0,3% do total da água doce, ou 0,007% da água do planeta”, diz o engenheiro húngaro Andras Szöllözi-Nagy, 50 anos, secretário do programa hidrológico e diretor da divisão de Ciências das Águas da Unesco, organização educacional, científica e cultural das Nações Unidas.
Especialista da ONU diz que o consumo cresceu mais do que a população e ensina que o rio corre na direção do dinheiro.
Para piorar, a população cresceu três vezes no século XX, enquanto o consumo de água aumentou seis vezes. O problema não é exclusividade de países desérticos. Mesmo o Brasil, que abriga 16% da água do mundo, sofre com o racionamento, graças à má administração dos recursos e da infraestrutura. “Quando o assunto é água, não há vencedores e perdedores. Compartilhar é o segredo”, ensina Szöllözi-Nagy, que deu a seguinte entrevista quando esteve no Brasil.

– Que uso é feito da água?
Andras Szöllözi-Nagy – Dos 42 mil quilômetros cúbicos de água doce existentes, 3,8 mil são utilizados anualmente. Destes, 70% são para irrigação. A indústria usa 20% e os 10% restantes são para uso doméstico. A tendência é assustadora. A população mundial triplicou no século XX, mas o consumo de água sextuplicou! Em 25 anos, a disponibilidade de água per capita caiu pela metade.
– Até pouco tempo havia a crença de que a água era um recurso inesgotável. Afinal, qual é a situação do planeta?
Szöllözi-Nagy – Se não mudarmos nossa relação com a água, estaremos em uma situação muito séria num momento próximo. Mas não vivemos um cenário apocalíptico, como o fim total da água ou uma guerra iminente no Oriente Médio. Há soluções. Estou otimista. As ferramentas estão aí. Precisamos usá-las.

Majestosa e soberana, reina sobre a mata uma beleza inigualável

– Quais ferramentas?
Szöllözi-Nagy – É tentador dizer que a tecnologia é a resposta. Ela é só parte da resposta. A crise da água é um aspecto de uma crise geral do modelo de desenvolvimento calcado no crescimento tecnológico ilimitado. A aplicação de mais tecnologia não pode resolver o problema. É necessário uma resposta cultural e ética. Como o principal consumo é na agricultura, é onde qualquer mudança faz diferença. Há técnicas como a criação de plantas que tolerem água um pouco salgada e a engenharia genética para diminuir a demanda por água da plantação. Existem iniciativas bem boladas de economia e reúso, como saneamento seco (sem descargas), coleta e estoque da água da chuva; e tecnologias para reciclar nutrientes de água do esgoto para a agricultura.
– Quais as principais causas da situação atual?
Szöllözi-Nagy – Nós mesmos. A demanda de água per capita mais do que dobrou, graças a um estilo de vida mais sofisticado, e a agricultura se apoia em irrigação. Há cidades onde o desperdício gerado por vazamentos chega a 70% da água consumida. Para consertar os canos é preciso apenas tapar furos.
– Quais as recomendações da Unesco?
Szöllözi-Nagy – A Organização das Nações Unidas (ONU) se preocupa com isso desde 1972. Ocupa espaços em fóruns como a Conferência Sobre Água e Meio Ambiente ocorrida em Dublin (Irlanda), em 1992, que foi um prelúdio da Rio 92.
Os princípios de Dublin enfatizam a finitude e a vulnerabilidade da água e a necessidade da abordagem participativa no uso e aproveitamento; determinam que se cobre pela distribuição e pela própria água; reconhecem a água como bem econômico e destacam o papel central da mulher. Em muitos lugares, coletar água é um papel feminino. Educar e dar poder às mulheres na gerência da água é um bom investimento. Tivemos ótimos resultados na Mauritânia, melhorando a qualidade da água e da saúde, já que 80% das doenças estão relacionadas com a água.
– Quais as regiões mais afetadas pela crise?
Szöllözi-Nagy – Os países áridos enfrentam desafios mais assustadores. Além do Oriente Médio, há áreas onde a escassez limita o crescimento socioeconômico. O norte da África, o sul da bacia do Nilo, a bacia de Mar de Aral e a região central da Ásia estão em situação muito difícil. A escassez pode ser fonte de conflitos, mas também fator de cooperação. Basta lembrar do acordo de partilhamento da água entre Israel e Jordânia, fundamental para o processo de paz. Quando o assunto é água, não há vencedores e perdedores, pois até os vencedores perderão no futuro. Compartilhar é o segredo.
– Mesmo com bastante água no país, algumas cidades brasileiras precisam racionar. Por quê?
Szöllözi-Nagy – Há áreas úmidas, como a Amazônia, e outras mais secas, como o Nordeste. Mas a maior explicação é o que ouvi de um especialista. Ele me perguntou para onde a água corria. Em direção ao mar, respondi. Errado, ele disse, na direção do dinheiro.



Esse texto está dividido em duas partes. Na primeira, são colocadas as ideias de Szöllözi-Nagy de forma indireta, entremeadas com passagens literais da fala do especialista, ou seja, discurso direto.
Na segunda parte, é apresentada uma entrevista, maneira mais fiel de transcrever as palavras de uma pessoa. Mas, nas duas partes do texto, existe sempre uma preocupação da edição, seja de uma revista ou de um jornal, com o espaço destinado ao texto, o que leva o escritor a selecionar trechos da fala do entrevistado.
Nesse processo, há o risco de se modificarem ideias e opiniões.




Glossário


Ética: parte da Filosofia responsável pela investigação dos princípios que motivam, distorcem, disciplinam ou aventam o comportamento humano.
Prelúdio: ato preliminar, primeiro passo para (alguma coisa).


       

              








   



   



   



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3. Em busca da água que sustenta a vida


Há mais de 2000 anos, no deserto da Arábia, uma cidade próspera de 30000 habitantes atingiu uma posição de destaque. Apesar do clima inclemente da região, cuja precipitação média é de apenas 150 milímetros por ano, os cidadãos de Petra aprenderam a viver com pouca água. A cidade cresceu e prosperou.
Os habitantes de Petra, os nabateus, não tinham bombas de água elétricas nem construíram represas enormes, mas sabiam coletar e conservar a água de que dispunham. Uma enorme rede de pequenos reservatórios, diques, canais e cisternas permitia que eles canalizassem a água cuidadosamente coletada para ser usada na cidade e nos seus pequenos terrenos. Não desperdiçavam uma gota sequer. Seus poços e cisternas foram tão bem construídos que até hoje são usados pelos beduínos. “A hidrologia é a beleza oculta de Petra”, diz um hidrólogo maravilhado. “Eles (os nabateus) eram gênios”. Em anos recentes, especialistas de Israel procuraram aproveitar a habilidade dos nabateus, que também tinham plantações no deserto do Neguev, onde a precipitação raramente passa dos 100 milímetros por ano. Agrônomos examinaram os restos de milhares de pequenas propriedades rurais daquele povo, cujos donos habilmente canalizavam as chuvas do inverno para seus pequenos campos, em terraços.
As lições aprendidas dos nabateus já estão ajudando os agricultores em países assolados pela seca na região do Sahel, na África. Mas métodos modernos de conservação de água também são eficientes. Em Lanzarote, uma das ilhas Canárias, localizada ao largo da costa da África, os agricultores aprenderam a cultivar uvas e figos em lugares onde quase não chove. Eles plantam as videiras ou figueiras no fundo de cavidades redondas e depois cobrem o solo com uma camada de cinza vulcânica para evitar a evaporação. O orvalho que escorre até as raízes é o suficiente para garantir uma boa colheita.

Petra - Jordânia




Petra, um importante enclave arqueológico na Jordânia, considerada uma das novas sete maravilhas do mundo.



Soluções simples


Casos similares de adaptação a climas áridos são encontrados em todo o mundo, por exemplo, entre o povo bishnoi, que vive no deserto de Thar, na Índia; entre as mulheres turkanas, no Quênia; e entre os índios navajos no Arizona, EUA. Suas técnicas para coletar a água da chuva, aprendidas ao longo de séculos, revelaram--se muito mais confiáveis para atender às necessidades agrícolas do que métodos de alta tecnologia.
O século 20 foi a era da construção de represas. Rios enormes foram domados e desenvolveram-se sistemas de irrigação faraônicos. Cientistas calculam que 60% dos rios e riachos do mundo foram controlados de uma forma ou de outra. Embora esses projetos tenham trazido alguns benefícios, os ecologistas falam do dano ao meio ambiente, sem mencionar o efeito sobre milhões de pessoas que perderam seus lares.
Além disso, apesar das boas intenções, poucas vezes esses planos beneficiam os agricultores que precisam desesperadamente de água. Comentando projetos de irrigação na Índia, o ex-primeiro-ministro Rajiv Gandhi disse: “Gastamos rios de dinheiro durante 16 anos. O povo não recebeu nada em troca: nem irrigação, nem água, nem aumento da produção, nem ajuda para o seu cotidiano”.
As soluções simples, por outro lado, se mostraram mais úteis e menos danosas para o meio ambiente. Os seis milhões de pequenos açudes e represas que foram construídos por comunidades locais na China tiveram muito êxito. Em Israel, teve-se a ideia engenhosa de reutilizar, no saneamento e depois na irrigação, a água usada para lavar.
Outra solução prática é a irrigação por gotejamento, que conserva o solo e usa apenas 5% da água necessária nos métodos tradicionais. O uso sensato da água também inclui escolher plantas próprias de clima seco, como sorgo e painço, em vez de plantas que precisam de muita irrigação, como a cana-de-açúcar e o milho.
Com um pouco de esforço, os usuários domésticos e a indústria também podem reduzir o consumo de água. Por exemplo, pode-se fabricar um quilo de papel com cerca de um litro de água, se a água usada na fábrica for reciclada – uma economia de mais de 99%.

O que é preciso para ter êxito


Para solucionar a crise da água – e a maioria dos problemas ambientais – é preciso uma mudança de atitude. As pessoas têm de aprender a cooperar, a fazer sacrifícios razoáveis quando necessário e estar decididas a cuidar da Terra para seus futuros habitantes. Nesse respeito, Sandra Postel, no livro Last Oasis – Facing Water Scarcity (O Último Oásis – Como Enfrentar a Escassez de Água), explica: “Precisamos de uma ética da água, um guia de conduta correta em face das decisões complexas que temos de tomar em relação a sistemas naturais que não conseguimos entender plenamente”.
É claro que essa “ética da água” não pode ser adotada apenas localmente. Os países e os vizinhos têm de cooperar, visto que rios não respeitam fronteiras nacionais. “As preocupações sobre a quantidade e a qualidade da água – que ao longo da História foram tratadas em separado – devem ser agora encaradas como uma questão global”, diz Ismael Serageldin, no seu relatório Beating­ the Water Crisis (Como Vencer a Crise da Água).
Mas conseguir que as nações tratem de assuntos globais não é tarefa fácil, conforme admite o Secretário-Geral da ONU, Kofi Annan. “No atual mundo globalizado”, diz ele, “os mecanismos existentes para ação em âmbito global estão num estágio pouco mais do que embrionário. Já está na hora de darmos um sentido mais concreto à ideia de ‘comunidade internacional’”.



Glossário


Enclave: terreno ou território encravado em outro.
Próspera: abundante, farta; favorável, propícia; afortunada, rica.
Inclemente: que não tem clemência; cruel, impiedoso; duro, rigoroso, severo.
Precipitação: quantidade de água, neve, granizo que se lança de cima para baixo, da atmosfera para o solo, em determinado período.
Sorgo: gramínea originária da Ásia e da África que fornece cereal utilizado na alimentação; gramínea originária da Índia cujos caules florais são utilizados para fazer vassouras.
Painço: planta de flores dispostas em espigas, que fornece grãos ricos em proteínas, cujas sementes são utilizadas para alimentação de aves.






Preposição antes do que :


Às vezes, por exigência dos verbos em uma oração, é necessário colocar preposição antes do que. Veja a frase abaixo:

  • [...] mas sabiam coletar e conservar a água de que dispunham.(dispor de)

Analise outros exemplos:
  • Gosto de romances.
Esse é o romance de que gosto.
  • Ele lembrou-se de a água ter fervido.
Ele lembrou-se de que a água ferveu.
  • Ele duvida da existência do problema da água.
Ele duvida de que existam problemas com a água


       

       







   



   



   



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4. Com licença, por favor, obrigado(a)!

   

Que falta de educação!!!



Montanhas de lixo nas praias e nas ruas, pichações e mau comportamento no trânsito mostram que o brasileiro ainda não se porta como um cidadão.


Férias, termômetros lá no alto e praias lotadas. Nada mais comum num país que tem um dos maiores litorais do mundo. O mar, o céu azul, corpos bonitos na areia compõem uma paisagem convidativa. Pelo menos de longe. De perto, nem sempre. O lazer predileto do verão também mostra um país de gente pouco educada. Num típico domingo carioca, logo cedo cangas e cadeiras coloridas disputam espaço com montinhos de lixo. Ao descuido somam-se outras pequenas infrações, como jogar frescobol ou futebol na beira da água junto às crianças que brincam na areia, levar o cachorro e andar de barco ou jet-ski a uma distância pouco cautelosa dos banhistas.
Para piorar, a maré carrega o lixo, infestando o mar. “Não tive coragem de entrar. Está muito sujo. Há poucas latas de lixo por perto”, observa o israelense Moshe Gerlitz, 22 anos, que visita o Brasil pela primeira vez. Não custa nada recolher as embalagens do que foi consumido e depois jogar fora, mas poucos fazem isso. Copos, latas e canudos ficam na areia mesmo. Só num fim de semana, nos quatro quilômetros da Praia de Copacabana são recolhidas 160 toneladas de lixo.
As praias são apenas um exemplo entre tantos. Camuflado sob desculpas pouco convincentes, o desprezo às regras aparece a todo momento no mundo dito civilizado e ultrapassa os portões tanto de casas humildes quanto de luxuosas mansões. Com uma simples volta pelo quarteirão é possível listar vários indícios de comportamento social abusivo. Nas praças e jardins, há que ter habilidade para desviar de fezes de cachorros e gatos. Em qualquer fila, há sempre alguém tentando passar na frente dos outros. Na banca de jornal da esquina, denúncias de corrupção reforçam o conceito de que o importante não é obedecer à lei e, sim, encontrar meios de burlá-la. Essa falta de educação é reconhecida pela população: em pesquisa IstoÉ on-line, 1 425 pessoas responderam à pergunta O brasileiro é mal-educado? Apenas 333 (19%) disseram que não.
Falta de controle – Os dividendos dessas atitudes podem ser colhidos em casa mesmo, aturando filhos abusados, ou na rua, enfrentando, por exemplo, enchentes causadas por bueiros entupidos de lixo. Claro que a primeira reação em situações como essa é cobrar das autoridades o serviço de limpeza. E, para a professora Ivete Lerman, do Serviço de Orientação do Departamento de Psicologia da Universidade de São Paulo, o desleixo dos governos com coisas simples de fato contribui para a descompostura do brasileiro. “A falta de infraestrutura dilui a força das regras”, diz a psicóloga. Ela lembra também os valores dos sistemas de controle. “Em outros países, há sempre placas apontando a multa pelo descuido na conservação de um parque, e alguém para fazer valer o aviso”, afirma. Foi o que percebeu o turista Moshe, que, enquanto opinava sobre o lixo na praia, cometia sem saber outra infração: jogava frescobol na beira d’água. “Estamos aqui desde cedo e ninguém nos falou nada”.
Para o professor de antropologia da Universidade Federal Fluminense Roberto Kant de Lima, 55 anos, o que falta ao país é sentimento de cidadania. “Se um americano vê alguém jogando papel no chão, ele não chama a polícia. Reprime, ele próprio, o ato”, aponta ele. A falta de iniciativa do brasileiro, segundo o professor, é fruto de uma confusão de conceitos. “No Brasil, o que é público é considerado do Estado e não da coletividade. As regras que regem o uso do espaço público são do Estado e não do povo. Por isso, a rua não é de ninguém”, explica. Aqui, quem reclama é “o chato”. Em Higienópolis, bairro paulistano de moradores ilustres como o presidente Fernando Henrique Cardoso, Sueli de Faria, 53 anos, leva a fama de pegar no pé dos donos de Bidus e Luluzinhas. Apesar das ruas arborizadas e prédios luxuosos, o bairro chegou a ser chamado de Cocosópolis por conta de alguns moradores que se orgulham por seus cães não fazerem sujeira nenhuma dentro de casa. Só na rua. “Não sei quem criou o apelido. Agora, eu não posso ficar calada vendo alguém parar em frente da minha loja para esperar o seu animal se aliviar. Se alguém entra aqui com os pés sujos pode estragar as minhas peças”, justifica Sueli, comerciante do bairro.
Efeito cascata – O melhor caminho para a mudança ainda é a conscientização. “O motorista que joga uma bituca de cigarro na beira da estrada não imagina que pode estar dando início a um incêndio”, observa o comandante do Corpo de Bombeiros do estado de São Paulo, coronel Wagner Ferrari. Ele, no entanto, não acha o brasileiro um mal-educado inveterado. “Quando há campanhas, as pessoas respondem bem”, analisa. O número de incêndios provocados por balões em São Paulo, por exemplo, caiu 20% no último ano. Bom. Só que se está falando de crime ambiental passível de pena de detenção de um a três anos.
Comportamentos não se mudam mesmo com decreto. A adoção do cinto de segurança só aconteceu depois da aprovação das pesadas multas do novo Código Nacional de Trânsito. O brasileiro melhorou no trânsito, mas estamos longe do comportamento razoável. “Londres, Nova Iorque e Paris têm em média 100 mortes por ano no trânsito. Na capital paulista, temos 15 vezes mais”, avalia o engenheiro Luís Carlos Cunha, diretor de operações da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) de São Paulo. As pessoas não percebem o efeito cascata de suas ações. “Um carro parado numa via de três faixas por onde passam 1,6 mil carros por hora atrapalha outros 800”, observa Cunha. Para a antropóloga Carmem Junqueira, da PUC-SP, essa alienação tem raízes no sentimento de desamparo provocado pelo mau desempenho das autoridades. “O que parece é que o Brasil é de alguns poucos, que agem à revelia do povo. As pessoas pensam: se ninguém cuida de nada, por que eu vou cuidar?”, diz ela.
Basta lembrar das recentes eleições para ver a falta de zelo de alguns políticos. Como votar em um candidato que emporcalha a cidade, colando panfletos por toda a parte? Eles se igualam aos pichadores, que se arriscam pelos telhados em busca de autoafirmação. Entristecido com as pichações também comuns na capital gaúcha, onde vive, o arquiteto Júlio Curtis, ex-diretor regional do Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, afirma que o que falta é amor e identificação com a cidade. “As pessoas só cuidam do que amam. E só amam o que reconhecem como seu”, ensina ele.
Constrangimento – O comportamento displicente, no entanto, independe do saldo bancário e da frequência ao circuito cultural. Não raro latinhas de refrigerantes saltam da janela de carros importados e celulares tocam inconvenientemente nas salas de teatro. Agora, mais constrangedor é quando o “desencanado” mora ao lado, como aconteceu com o universitário Frederico Perret, 22 anos. Uma de suas vizinhas, distraidíssima, se empolgava muito nas noites em que recebia o namorado. “Ouvíamos gemidos e gritinhos. Mas como reclamar sem parecer invasão de privacidade? Ninguém tinha coragem de falar com ela”, conta o estudante.
Para superar o vizinho inoportuno, só mesmo os adeptos da lei de Gérson, aqueles que querem “levar vantagem em tudo”. Adoram furar fila e ultrapassar pelo acostamento. O pior é que aí acontece uma inversão total de valores: ninguém quer sentir-se o “otário”, que faz tudo certinho enquanto o outro banca o esperto. Na verdade, no caso de ultrapassagem proibida, por exemplo, otário é quem se arrisca a levar uma multa, perder 7 pontos na carteira ou causar um acidente.
Mas se todos esses danos coletivos não bastam para mostrar a importância do respeito ao outro e à cidade, ainda pode-se apelar para o prejuízo pessoal. Quem já não passou um daqueles dias terríveis, em que – depois de acordar de mau humor porque o filho do vizinho resolveu ensaiar a nova música de madrugada – abre o portão, borra o sapato numa herança canina e dá de cara com um carro estacionado em frente a sua garagem? E, ainda, vê no trânsito um monte de espertinhos cortando pelo acostamento. Resultado: não é nem meio-dia e já se está soltando fogo pelas ventas. Segundo Ana Maria Rossi, presidente no Brasil da International Stress Management Association, essas pequenas contrariedades causam grandes estragos. Os grandes traumas, explica ela, são compensados pelo apoio de familiares e amigos, mas o mesmo não acontece com as irritações do dia a dia. “Todo mundo se comove com a desgraça, mas para quem vamos reclamar das pequenas contrariedades? São elas que causam a morte prematura com a descarga permanente de adrenalina no sangue”, completa Ana Maria. Portanto, o brasileiro poderia melhorar seu comportamento ao menos por amor a si mesmo.








Observe as frases abaixo e compare-as:


• “Ao descuido somam-se outras pequenas infrações, como jogar frescobol [...].”
• Ao descuido soma-se outra pequena infração.

Você notou que nessas frases os sujeitos ocorrem depois do verbo? Isso exige um cuidado especial com a concordância porque na oralidade informal a maioria das pessoas não a realiza mais e, ao escrever, se esquece da regra.



Em todas as línguas ocorre empréstimo vocabular, isso porque sempre há trocas culturais entre os povos. No texto, as palavras jet-ski e on-line são exemplos dessa situação. Porém, há convenções para o uso de estrangeirismo em português. Veja algumas delas:

a) se há uma palavra em português equivalente à estrangeira, deve-se empregar a palavra portuguesa;
b) se não há uma palavra portuguesa equivalente à estrangeira, escreva-a destacada em itálico, utilizando-se as ferramentas do computador;
c) palavras estrangeiras bastante usadas, isto é, bem conhecidas da população em geral, não precisam de destaque.



Glossário


Inveterado: muito antigo; entranhado, enraizado.








       


       

       






   



   



   



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