sábado, 3 de junho de 2017

30. A poesia em progresso

   
Desde os anos 60, tem havido cada vez mais poetas e tem surgido grande número de bons poemas – mas o círculo de leitores continua restrito.


Quem estiver acompanhando o que andou acontecendo no campo da poesia brasileira a partir dos anos 60 certamente concordará que muita coisa mudou para melhor. Há muito mais gente escrevendo, inclusive há mais textos de boa qualidade literária. Percebe-se uma abertura maior para o novo, um interesse maior por textos que sejam originais e incorporem as conquistas dos movimentos de vanguarda do século 20. O panorama é mais pluralista e quase acabou totalmente o sectarismo do começo dos anos 60, dos grupos fechados como o movimento concreto, a poesia-práxis, a vertente engajada ligada ao PCB, o poema-processo.
Deve ser registrada a contribuição do Tropicalismo nesse processo de abertura e ventilação do ambiente e, dentro do Tropicalismo, a marcante presença do Torquato Neto, legítimo poeta maldito, neorromântico, que se matou em 1972, na época do maior sufoco político e também cultural. Torquato deixou uma obra pequena, inconclusa, porém na qual se percebe o brilho de um imenso talento.
Apesar de sua breve duração, de apenas um ano, interrompida que foi pela prisão e exílio de Caetano Veloso e Gilberto Gil, a Tropicália deixou sua marca, abalando os alicerces de um determinado tipo de hiperintelectualismo e também as concepções demasiado simplistas do que venha a ser uma reflexão sobre a realidade brasileira.
Convém ressaltar que essa contribuição do Tropicalismo faz parte de um contexto mais amplo, de um processo de modernização cultural brasileira que durou dos meados dos anos 60 até o começo da década de 1970, e que inclui a vanguarda nas artes plásticas (Helio Oiticica, Rubens Guerchman, etc.), o cinema underground e experimental (principalmente Rogério Sganzerla e Júlio Bressane), espetáculos multimídia como os de Agripino de Paula, a atuação do Teatro Oficina e muitas outras coisas. Tais manifestações, por sua vez, têm alguma conexão com a contracultura e o tipo de inquietação e interesse pelo novo que caracterizam os anos 60 em escala mundial.
Há ainda outras coisas boas a serem assinaladas a propósito da moderna poesia brasileira. Por exemplo, o aparecimento, em meados dos anos 70 para cá, de uma nova poesia feminina, correspondendo a um novo tipo de consciência da mulher, do seu posicionamento na sociedade e da sua relação com a linguagem. Podem ser citadas como exemplo dessa tendência, marcada por um texto informal, espontâneo e desinibido, autoras tão diferentes entre si, sob outros aspectos, como Ana Cristina César e Leila Miccolis.

Caetano Veloso, cantor da música popular brasileira.



Caetano Veloso, cantor da música popular brasileira.




Uma produção poética menos acadêmica e mais coloquial


De modo geral – e essa poesia de mulheres talvez seja um aspecto particular de um fenômeno mais geral –, temos hoje uma produção mais atenta para a linguagem falada, menos acadêmica e mais informal e coloquial. É um equívoco, todavia, atribuir isso a um reflexo do tipo de criação literária feita no campo das letras musicais, ou então afirmar que os modernos poetas são os letristas como Antonio Carlos de Brito (Cacaso), Vilhena, Geraldo Carneiro e outros. Acontece apenas que a letra de música, uma vez veiculada em disco, tem uma circulação muito maior, atingindo muito mais gente. E, dos letristas que também se aventuraram à edição em livro, alguns provaram ser poetas genuínos (Geraldo Carneiro, por exemplo); outros, meros equívocos.
Mas, com tudo isso, com todos esses avanços, a poesia brasileira continua existindo mais como assunto, como pretexto para discussões literárias, do que como presença no mercado editorial. A verdade é que livro de poesia vende pouco porque ainda falta apoio institucional para que os bons poetas conquistem seu público.

Gilberto Gil, símbolo vivo da música popular brasileira





Gilberto Gil, símbolo vivo da música popular brasileira




Glossário


Sectarismo: espírito limitado, estreito; intolerância; intransigência.







       



       



       



       


       





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