terça-feira, 4 de julho de 2017

14. Urbanização no Brasil - A modernização excludente

   
Na década de 1940, quando apenas 31% da população brasileira era urbana, as cidades eram vistas como o lado moderno e avançado de um país predominantemente agrário e atrasado. As mudanças políticas do final dos anos 1930 implicaram a reorientação do Estado, que passa a apoiar claramente a industrialização, cuja base é eminentemente urbana. De 1940 a 1980, o PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro cresce a 7% ao ano, o que é um crescimento excepcional, sob qualquer ponto de vista. O país sai desse período, que alguns autores chamam de desenvolvimentista, com uma base industrial respeitável. O processo de urbanização-industrialização parecia representar um caminho para a independência de séculos de dominação da produção agrário-exportadora e de mando coronelista.
No final do século 20, quando 80% da população do país é urbana, a imagem das cidades, especialmente das metrópoles, apresenta-se bastante diversa daquela de 60 anos antes. Violência, enchentes, poluição do ar e das águas, favelas, desmoronamentos, infância abandonada, etc. Em apenas nove metrópoles, moram 50 milhões de pessoas. É mais do que a população da maior parte dos países da Europa ou da América Latina. Em 50 anos, a população urbana brasileira cresceu mais de 100 milhões de indivíduos. A sociedade apenas começa a se dar conta de que o avassalador processo de urbanização foi acompanhado da modernização no modo de vida, no ambiente construído, nas comunicações, sem deixar, entretanto, de reproduzir seu lado arcaico. Isto é, a modernização – assim como a cidadania e os direitos – é para alguns e não para toda a sociedade. Trata-se de uma modernização incompleta ou excludente ou discriminatória, que não garante os direitos individuais universais para todos da mesma forma.
Não se trata de alimentar a noção da cidade dual ou fraturada. Ela pode ser utilizada para facilitar a compreensão da segregação e da exclusão, mas também pode conduzir a uma falácia: a de que o atual modelo de desenvolvimento poderia ser estendido a todos. Há uma relação biunívoca entre esse moderno e esse arcaico. Os aparelhos eletroeletrônicos chegam às favelas antes da unidade sanitária completa (e, evidentemente, antes da moradia digna). A política do favor e o clientelismo continuam a mediar as relações sociais, como há séculos. A aplicação da lei se subordina às relações de poder.
Embora o processo de urbanização tenha se dado predominantemente no último século, sob a égide do trabalho livre, os trabalhadores, em sua maioria, nunca tiveram acesso à moradia na cidade formal. Se estavam presentes em alguns planos urbanos, eles dificilmente foram prioridade nas gestões públicas. Os investimentos invariavelmente contrariam a prática: o social é fundamental nos discursos; na prática, a prioridade é a criação de novas localizações para o mercado imobiliário privado, mediada pelas obras viárias.
Durante os anos 1980 e 1990, sob novas relações internacionais, a desigualdade se aprofunda. Nas cidades aumentam as favelas, agrava-se o comprometimento de córregos, rios, lagos e praias com o esgoto doméstico e o lixo sólido e cresce o número de crianças abandonadas. Levantamentos científicos comprovam o que nossos olhos constatam diariamente. Além das características históricas, dentre as quais o desemprego e a desigualdade, que são estruturais, talvez a maior novidade esteja na explosão de um novo tipo de violência: a chamada violência urbana. Alguns indicadores sociais continuam a ter uma evolução positiva desde os anos 1940. Dos mais importantes, podemos citar a queda da mortalidade infantil e o aumento da esperança de vida ao nascer. Mas, nos anos 1990, o aumento no número de homicídios passa a impactar até mesmo a esperança de vida ao nascer, em nível nacional, dos homens jovens, em especial pretos e pardos.
A relação entre hábitat e violência é dada pela segregação territorial. Ela não é um simples reflexo, mas um indutor da desigualdade. À dificuldade de acesso aos serviços de infraestrutura urbana (transporte precário, saneamento deficiente, drenagem inexistente, difícil acesso aos serviços de saúde, educação, cultura e creches, maior exposição à ocorrência de enchentes e desabamentos) somam-se menores oportunidades de emprego, maior exposição à violência (marginal ou policial), difícil acesso à justiça oficial, poucas opções de lazer e discriminação racial. A exclusão é um todo: social, econômica, ambiental e cultural.
No meio urbano, a relação entre legislação, mercado imobiliário e exclusão social produz a segregação territorial. É nas áreas desprezadas pelo mercado imobiliário, nas ambientalmente frágeis, cuja ocupação é vetada pela legislação, e nas áreas públicas que a população pobre vai se instalar: encostas dos morros, beira dos córregos, regiões de mangue e de proteção aos mananciais, etc.
Metade da população do Rio de Janeiro ou São Paulo mora ilegalmente. Das maiores cidades brasileiras, mais de um quinto dos habitantes mora em favelas. Um bom começo para mudar tal situação é conhecê-la. Retirar o véu que encobre essa realidade e tomar a consciência da dimensão da “cidade oculta” é indispensável para começar a construir uma cidade para todos.

O acelerado processo de urbanização diminuiu a qualidade de vida nas grandes cidades.



O acelerado processo de urbanização diminuiu a qualidade de vida nas grandes cidades.


Glossário


Arcaico: relativo a épocas antigas; antiquado, obsoleto.
Biunívoco: diz-se da relação entre dois conjuntos, segundo a qual cada elemento de um conjunto corresponde a apenas um no outro e vice-versa.
Égide: aquilo que ampara, protege, defende.
Falácia: falatório, fala desprovida de valor.




Dicas de Gramática



Dica 7 – Uso de “AONDE” ou “ONDE”

AONDE é utilizado com verbos que indicam movimento, como na frase
  • “Aonde estamos indo?”

ONDE é utilizado com verbos estáticos, como em
  • “Onde está a minha carteira?”
Dica: o termo “onde” é utilizado para se referir a espaços físicos, como em “A sala onde ficará a equipe”. NUNCA utilize frases do tipo “O item da proposta onde é tratado o assunto…”. O correto seria “O item da proposta em que é tratado este assunto…”


Dica 8 – Uso de “A PRINCÍPIO” ou “EM PRINCÍPIO”

EM PRINCÍPIO é o mesmo que “em tese”, “de um modo geral”, como na frase
  • “Em princípio, achei você uma pessoa muito legal”

A PRINCÍPIO significa “começo”, “início”, como na frase
  • “A princípio, achei você uma pessoa muito legal. Mas depois percebi que me enganei.”






       

       












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