terça-feira, 4 de julho de 2017

2. Tesouro líquido - GOTA-D’ÁGUA

   
Especialista da ONU diz que o consumo cresceu mais do que a população e ensina que o rio corre na direção do dinheiro.


Entre os desafios que aguardam o homem nas próximas décadas, talvez nenhum seja mais intimidador do que a falta d’água.
Pode parecer estranho falar em escassez num planeta composto por dois terços de água, mas, do total de 1,5 bilhão de quilômetros cúbicos (1,5 bilhão de trilhões de litros), 97,5% é salgada. Só 2,5% da água da Terra é doce. Parece pouco? Pois 68,9% desses 2,5% estão nos polos congelados e 29,9% em lençóis subterrâneos. Cerca de 0,9% dos 2,5% está nos pântanos. “Temos disponível em lagos e rios 0,3% do total da água doce, ou 0,007% da água do planeta”, diz o engenheiro húngaro Andras Szöllözi-Nagy, 50 anos, secretário do programa hidrológico e diretor da divisão de Ciências das Águas da Unesco, organização educacional, científica e cultural das Nações Unidas.
Especialista da ONU diz que o consumo cresceu mais do que a população e ensina que o rio corre na direção do dinheiro.
Para piorar, a população cresceu três vezes no século XX, enquanto o consumo de água aumentou seis vezes. O problema não é exclusividade de países desérticos. Mesmo o Brasil, que abriga 16% da água do mundo, sofre com o racionamento, graças à má administração dos recursos e da infraestrutura. “Quando o assunto é água, não há vencedores e perdedores. Compartilhar é o segredo”, ensina Szöllözi-Nagy, que deu a seguinte entrevista quando esteve no Brasil.

– Que uso é feito da água?
Andras Szöllözi-Nagy – Dos 42 mil quilômetros cúbicos de água doce existentes, 3,8 mil são utilizados anualmente. Destes, 70% são para irrigação. A indústria usa 20% e os 10% restantes são para uso doméstico. A tendência é assustadora. A população mundial triplicou no século XX, mas o consumo de água sextuplicou! Em 25 anos, a disponibilidade de água per capita caiu pela metade.
– Até pouco tempo havia a crença de que a água era um recurso inesgotável. Afinal, qual é a situação do planeta?
Szöllözi-Nagy – Se não mudarmos nossa relação com a água, estaremos em uma situação muito séria num momento próximo. Mas não vivemos um cenário apocalíptico, como o fim total da água ou uma guerra iminente no Oriente Médio. Há soluções. Estou otimista. As ferramentas estão aí. Precisamos usá-las.

Majestosa e soberana, reina sobre a mata uma beleza inigualável

– Quais ferramentas?
Szöllözi-Nagy – É tentador dizer que a tecnologia é a resposta. Ela é só parte da resposta. A crise da água é um aspecto de uma crise geral do modelo de desenvolvimento calcado no crescimento tecnológico ilimitado. A aplicação de mais tecnologia não pode resolver o problema. É necessário uma resposta cultural e ética. Como o principal consumo é na agricultura, é onde qualquer mudança faz diferença. Há técnicas como a criação de plantas que tolerem água um pouco salgada e a engenharia genética para diminuir a demanda por água da plantação. Existem iniciativas bem boladas de economia e reúso, como saneamento seco (sem descargas), coleta e estoque da água da chuva; e tecnologias para reciclar nutrientes de água do esgoto para a agricultura.
– Quais as principais causas da situação atual?
Szöllözi-Nagy – Nós mesmos. A demanda de água per capita mais do que dobrou, graças a um estilo de vida mais sofisticado, e a agricultura se apoia em irrigação. Há cidades onde o desperdício gerado por vazamentos chega a 70% da água consumida. Para consertar os canos é preciso apenas tapar furos.
– Quais as recomendações da Unesco?
Szöllözi-Nagy – A Organização das Nações Unidas (ONU) se preocupa com isso desde 1972. Ocupa espaços em fóruns como a Conferência Sobre Água e Meio Ambiente ocorrida em Dublin (Irlanda), em 1992, que foi um prelúdio da Rio 92.
Os princípios de Dublin enfatizam a finitude e a vulnerabilidade da água e a necessidade da abordagem participativa no uso e aproveitamento; determinam que se cobre pela distribuição e pela própria água; reconhecem a água como bem econômico e destacam o papel central da mulher. Em muitos lugares, coletar água é um papel feminino. Educar e dar poder às mulheres na gerência da água é um bom investimento. Tivemos ótimos resultados na Mauritânia, melhorando a qualidade da água e da saúde, já que 80% das doenças estão relacionadas com a água.
– Quais as regiões mais afetadas pela crise?
Szöllözi-Nagy – Os países áridos enfrentam desafios mais assustadores. Além do Oriente Médio, há áreas onde a escassez limita o crescimento socioeconômico. O norte da África, o sul da bacia do Nilo, a bacia de Mar de Aral e a região central da Ásia estão em situação muito difícil. A escassez pode ser fonte de conflitos, mas também fator de cooperação. Basta lembrar do acordo de partilhamento da água entre Israel e Jordânia, fundamental para o processo de paz. Quando o assunto é água, não há vencedores e perdedores, pois até os vencedores perderão no futuro. Compartilhar é o segredo.
– Mesmo com bastante água no país, algumas cidades brasileiras precisam racionar. Por quê?
Szöllözi-Nagy – Há áreas úmidas, como a Amazônia, e outras mais secas, como o Nordeste. Mas a maior explicação é o que ouvi de um especialista. Ele me perguntou para onde a água corria. Em direção ao mar, respondi. Errado, ele disse, na direção do dinheiro.



Esse texto está dividido em duas partes. Na primeira, são colocadas as ideias de Szöllözi-Nagy de forma indireta, entremeadas com passagens literais da fala do especialista, ou seja, discurso direto.
Na segunda parte, é apresentada uma entrevista, maneira mais fiel de transcrever as palavras de uma pessoa. Mas, nas duas partes do texto, existe sempre uma preocupação da edição, seja de uma revista ou de um jornal, com o espaço destinado ao texto, o que leva o escritor a selecionar trechos da fala do entrevistado.
Nesse processo, há o risco de se modificarem ideias e opiniões.




Glossário


Ética: parte da Filosofia responsável pela investigação dos princípios que motivam, distorcem, disciplinam ou aventam o comportamento humano.
Prelúdio: ato preliminar, primeiro passo para (alguma coisa).


       

              












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