terça-feira, 4 de julho de 2017

22. Lemos a TV e ela nos escreve


Segundo uma pesquisa realizada pelo Ibope sobre o tempo de permanência dos espectadores diante da tela da televisão. As mulheres vencem os homens: são 54,89% de espectadoras ante 45,11% de homens. Também vencem no tempo gasto para assistir à programação: por dia, elas desperdiçam a incrível soma de 5h08min12s e eles, 4h36min43s!
As classes sociais D e E veem televisão durante 5h11min51s diárias. E os adultos com mais de 50 anos permanecem por mais tempo diante da telinha: 5h28min59s. O mais estarrecedor é que ninguém — homem, mulher, criança, adolescente ou adulto — fica menos de 4h22min43s diárias assistindo à TV!
É mais do que um sexto de cada dia da semana gastos na exposição ao consumo e a programas que não promovem o pensamento reflexivo nem a melhoria dos níveis culturais.
Uma situação tão presente nas diferentes camadas da sociedade brasileira, uma dedicação tão intensa a um veículo de comunicação e uma disponibilidade tão fiel merecem ser consideradas pelos educadores, principalmente quando pensam a respeito de como se formam os modos de interpretação, como as imagens e as palavras influenciam na formação do imaginário coletivo e qual é a ideologia construída a partir da utilização desse veículo.
Marshall McLuhan — ao criar uma definição-síntese da cultura dos anos 1960 ao dizer que “o meio é a mensagem” — que motivou, Eric McLuhan(Seu filho), a aplicar noções e termos bélicos ao assunto da comunicação e propor uma batalha virtual dos meios de comunicação entre si (televisão x cinema x leitura x fotografia), e deles com a cultura (evasão, emoções, uso da tecnologia). Esse caráter agressivo do ataque à televisão expandiu-se para os comportamentos: ele critica a passividade da leitura emocional e de imagens, e adverte para a atividade danosa dessa linguagem sobre o cérebro.
De todos os meios criados pela sociedade ao longo dos tempos, a televisão talvez seja o mais atraente e o de mais fácil acesso. Mas a discussão entre meio e desligamento do real é mais antiga: o grande escritor francês Flaubert apresentava, no romance Madame Bovary (1857), a personagem Ema, cuja razão foi adormecida para que as emoções pudessem reinar absolutas. A causa? Os romances sentimentais!
Alguém pode afirmar que filmes de terror ou thrillers enriquecem a razão humana só porque estimulam os dois hemisférios cerebrais? O fato de o computador — assim como a televisão — se utilizar de cores básicas, torna esse meio de informação e fantástico banco de dados em indiscutível fonte de evasão?
Acreditar que a acusação de evasão seja motivo suficiente para provocar o afastamento do público de todas as idades, crenças e profissões da frente de uma tela iluminada, barulhenta e dinâmica é uma demonstração de ingenuidade. A evasão pode ser um valor tão importante quanto a razão para indivíduos que não conseguem superar as diferenças de educação e de oportunidades de melhoria de vida. A evasão pode funcionar como compensação para uma vida sem horizontes. Quem se detém, mesmo que rapidamente, diante da TV em busca de material de pesquisa e análise, percebe, com a rapidez do raio laser e alimentada pela fibra óptica, que a programação e os interesses mercadológicos é que, intencionalmente, reduzem os espectadores ao estado de amebas com carteira de identidade.
Vivemos em uma época em que a desrazão, ou a falta de uso da razão, é o melhor atestado da sua existência. E que, de maneira racional, se programa um ataque terrorista e uma resposta vingativa no Afeganistão. No momento em que a intelectualidade se recusa a continuar acreditando em dualismos opositivos, como razão x evasão; televisão x leitura e tela x público, persistir neles significa retrocesso.
Um menino frente à tela somente se afastará do real e do racional se todos os seus antecedentes culturais, a satisfação afetiva, os estímulos lúdicos prazerosos e as trocas simbólicas significativas não existirem. O desamparo social, afetivo, cultural e simbólico provoca dores e sofrimentos interiores intensos. A evasão converte-se, nesse caso, em rota de sobrevivência.
A televisão não faz “perder a paciência para a leitura”, como afirma Eric McLuhan, visto que a leitura não é um ato massacrante e tedioso, com o qual se deva ter “paciência”. Um leitor com formação efetiva e crítica lê, APESAR do televisor ligado à sua frente. São linguagens diferentes com poderes diversificados. Coabitam o cérebro. O futuro da cultura não pode ser visto com pessimismo. Fazemos a cultura de amanhã em todos os momentos do presente.
Empresários, programadores, publicitários, artistas e técnicos trabalham racionalmente para produzir o lixo cultural de hoje, que não é voltado exclusivamente para as emoções (que também é um valor cerebral), mas para o instinto, sobretudo o sexual. A evasão e a destruição da razão fazem parte de quem domina os meios de comunicação (em si, meios sem razão e sem emoções) para anestesiar a vontade política e crítica geral. Valorizar músculos e nádegas como projetos de vida é antes questão ética e política do que tecnológica ou emocional.

Autora: Marta Morais da Costa.


Tempo prolongado em frente à televisão não faz bem à saúde da criança.



Tempo prolongado em frente à televisão não faz bem à saúde da criança.




Televisão desligada



QUINO. Toda Mafalda. 5. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2001.




Sem tempo



BENETT. Coletânea de charges e tiras.(Paixão, Pancho e Benett). Gazeta do Povo, Curitiba, [s.d.].




Comentarista




LAERTE. Comentarista. Folha de S. Paulo, 24 jun. 2001.




TV na floresta






LAERTE. TV na floresta. Folha de S. Paulo, 25 maio 2001.





Glossário


Estarrecedor: que causa espanto, assombro, que causa horror.
Absoluto: independente, sem restrições, ilimitado, soberano, único.
Lúdico: relativo ao jogo, a brinquedo que visa a mais divertimento.






Dicas de Gramática



Escrevo números por extenso ou não?


A maioria das pessoas acha que os números de um texto formal sempre devem ser escritos por extenso. Na realidade, existem algumas diretrizes que determinam se há necessidade de se escrever o número por extenso ou se é possível escrever o algarismo.
Seguem, como material de consulta, as principais diretrizes de uso dos números em textos de Redação Empresarial.

Escreva todo número abaixo de dez por extenso
As nove máquinas compradas pela empresa apresentaram problemas.
O diretor assinou os oito contratos sem ler as cláusulas com cuidado.
Exceções: unidades de medida, idade, tempo, datas, números de páginas, porcentagens, valores, proporções.
Exemplos: 2 metros 32 anos 8h00 16 de novembro Página 4 51% R$ 50,00

Escreva números sempre que dois ou mais estiverem em um mesmo período
No 4º dia do evento, 42% dos convidados não compareceram nas 50 mesas redondas agendadas.

Nunca misture número com numerais (por extenso)
Em vez de: No sexto dia do lançamento, 20% do novo produto ainda não estavam distribuídos.
Escreva: No 6º dia do lançamento, 20% do novo produto ainda não estavam distribuídos.

Escreva os grandes números na forma mais familiar ao leitor
Pondere qual é mais familiar: 185.000.000 1,85 x 108 185 milhões 185 x 106

Use números seguidos de palavras quando os últimos cinco ou seis dígitos forem zero
3 milhões (em vez de 3.000.000)
160 milhões (em vez de 160.000.000)

Escreva decimais e frações em números
0,39 (e não zero vírgula trinta e nove)
¾ (e não três quartos)

Não exagere o grau de precisão: escreva números com, no máximo, duas decimais
0,65 (e não 0,65187)
0,83 (e não 0,82798)

Se o número é uma aproximação, mencione
Aproximadamente 13 milhões…
Cerca de 30 metros distante…
Perto de 15 litros se perderam…

Não comece uma frase com números
Quatro quintos do território de vendas
e não
4/5 do território de vendas
ou
4 quintos do território de vendas.
Três mil e quatrocentos reais foi o custo do treinamento
e não
R$3.400,00 foi o custo do treinamento.

Só se usa a forma 02, 03, 09 em documentos de natureza legal, fiscal, jurídica ou cartorial








       


       
       












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